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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um homem que circula

Um homem que circula

O italiano Umberto Eco transita com desenvoltura em variados campos do pensamento

Por Gabriela Longman

Umberto Eco percorre, com naturalidade, a semiótica, a estética, a linguística, a história da literatura e a cultura de massas. Seu pensamento mora em algum lugar entre São Tomás de Aquino e Pierce; Abelardo e Karl Popper. Salta do texto à imagem; da Idade Média às redes informáticas. Se cai nos abismos da controvérsia, sabe como sair deles. Autor de cinco romances, ganhou fama mundial ao publicar, em 1980, O Nome da Rosa, thriller com páginas inteiras em latim, reflexões sobre a escolástica e a lógica e uma imersão na atmosfera monástica do medievo europeu.

Hoje, aos 77 anos, o intelectual italiano afirma que fica entediado se não faz muitas coisas ao mesmo tempo. Tradutor de textos ingleses e franceses do século 19, é autor de mais de 200 prefácios e um notório especialista em James Joyce ("Economizar em Cima de Joyce" é um dos principais ensaios de seu livro Os Limites da Interpretação). Atualmente assina a curadoria de um projeto artístico no Museu do Louvre, em Paris, juntando arte, história e música. A programação inclui um olhar "contemporâneo" sobre as coleções clássicas do museu e uma série de espetáculos que dialogam com seu trabalho.

Graças ao convite, Eco passa os meses de novembro e dezembro na capital francesa, onde presidiu um colóquio sobre a vanguarda italiana dos anos 1960 - afinal, foi baseado no contato com artistas como Lucio Fontana, Alberto Burri e Piero Manzoni que elaborou o conceito de "obra aberta" (1962), seu modelo teórico para explicar a arte contemporânea. Convidou o compositor e DJ francês Laurent Garnier para o encerramento do evento, no dia 13 de dezembro, num concerto-projeção que pretende misturar John Lee Hooker, Charles Trenet, música eletrônica, música concreta. Finalmente, lotou a livraria do museu nas duas sessões de autógrafos de seu novo livro, Vertige de la Liste, que percorre a história da arte e da literatura com base na ideia da lista, da enumeração.

Da Wikipédia a Berlusconi

Nascido em Alexandria - não a do Egito, fundada em homenagem a Alexandre, o Grande, mas a do Piemonte, às margens do Rio Pó, fundada em homenagem ao papa Alexandre III -, Eco passou boa parte de sua vida na Universidade de Bolonha, a mais antiga da Europa, fundada em 1088. Titular e professor de honra da cadeira de semiótica (aposentado), é hoje diretor da Escola de Ciências Humanas da mesma universidade. Ensinou temporariamente em Yale, na Universidade Columbia, em Harvard e no Collège de France. Sua vida desenvolve-se, então, numa alternância constante entre as atividades na academia, a carreira literária e a imprensa - é colunista da revista semanal italiana L'Espresso, na qual escreve, entre uma infinidade de temas, sobre Berlusconi e Wikipédia. A Wikipédia ele aprova com ressalvas e garante que corrige, pessoalmente, as imperfeições que encontra no verbete a seu respeito. "A Wikipédia confirma as teorias do filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, de uma comunidade (científica) que através de um tipo de homeostase elimina os erros e legitima novas descobertas, continuando assim a carregar o que ele chamou de tocha da verdade (...) Quando eu uso a Wikipédia, emprego as técnicas utilizadas pelos acadêmicos profissionais: leio sobre um determinado tópico e depois comparo a informação com material encontrado em três ou quatro outros sites." Quanto a Berlusconi, ele reprova, também com ressalvas: "O problema da Itália não é Berlusconi, são os italianos como um todo", escreveu o escritor num artigo recente em que convidava a intelectualidade italiana a se posicionar.

À parte toda a circulação e apesar do carrossel de
atividades, Eco é, indiscutivelmente, um homem dos livros


"Em 1931, o fascismo impôs aos professores universitários - 1.200 na época - um juramento de fidelidade ao regime. Apenas 12 recusaram e perderam seus empregos. Talvez os 1.188 que ficaram tivessem razões nobres. Mas os 12 que disseram não salvaram a honra da universidade e, definitivamente, a honra do país."

Eco diz ter conhecido Berlusconi no tempo em que este era ainda um homem jovem que fazia negócios no setor da construção, mas que cogitava passar às mídias de massa e, para sondar o terreno, marcou um almoço com intelectuais. O escritor esteve presente junto com um amigo. "Encontramos este tipo que não diz praticamente nada na mesa, a não ser algumas pequenas besteiras. Partimos com o pretexto de que já era tarde. Na escada, disse a meu amigo: 'Que imbecil que nos fizeram encontrar...' E foi assim que perdi a chance de tornar-me o número 2 da Itália." (A propósito, o italiano é o "número 2" na eleição da revista norte-americana Prospect em torno do maior intelectual vivo do mundo, atrás de Noam Chomsky).

Paixão pelos livros

Independentemente dos números, Umberto Eco é um homem que circula. Dizem as más línguas que tirou a barba para poder passear com mais tranquilidade na última Feira de Frankfurt. Residente em Milão, passa de três a quatro dias por semana em Bolonha, onde é uma espécie de mito - quase todas as vitrines ostentam seus títulos, como uma mãe orgulhosa do filho pródigo. Os moradores da cidade garantem que ele praticamente não sai da universidade, mas de vez em quando é visto comendo pizza cercado por seus estudantes em alguma trattoria barata do centro. A maior parte das antigas livrarias de que gostava foi substituída pela megastore da rede Feltrinelli, que ocupa o número 1 da Piazza di Porta Ravegnana. Ele lamenta e não lamenta: "As velhas livrarias tinham livreiros sábios, que davam bons conselhos, mas havia certo ar de sobriedade que intimidava os leitores iniciantes. Atualmente, vejo a juventude mais à vontade ao folhear os livros dentro destes prédios de oito andares".

Pois que, à parte toda a circulação e apesar do carrossel de atividades, Eco é, indiscutivelmente, um homem dos livros - do recolhimento, portanto. A quase totalidade de seus escritos romanescos ou teóricos fala de livros, sobre livros ou sobre bibliotecas. Bibliófilo inveterado, tem em sua estante 1.200 obras raras. É dessa dialética da reclusão e da circulação que nasce sua figura.

Junto com o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, lançou no ano passado N'Espérez pas vous Débarrasser des Livres ("Não Espere se Livrar dos Livros", publicado em Portugal com o título A Obsessão do Fogo e ainda inédito no Brasil), uma conversa dos dois mediada pelo jornalista Jean-Philippe de Tonac. Ali, insiste no ponto que defende desde o começo das mídias eletrônicas: o livro como objeto não vai desaparecer, é insuperável, tal qual a roda ou o martelo:

"Você pode levá-lo para sua banheira sem ter medo de morrer eletrocutado; pode ler numa ilha deserta, enquanto o pobre Robinson Crusoé não saberia o que fazer com as baterias descarregadas de um e-book. Este livro em papel sobrevive mesmo que o deixemos cair do 5º andar de um prédio, mas tente fazer o mesmo com um livro eletrônico!"
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* Fonte: CULT , edição 142, disponível em 31 de dezembro de 2009

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Escola Nova e Tradicional: um desafio para a educação no século X XI




Escola Nova e Tradicional: um desafio para a educação no século X XI


Sandra Meyre Lopes Nunes e Silva



Anular concepções arraigadas aos educadores sobre o que realmente significa ensino tradicional torna-se, praticamente, impossível, porque elas possuem raízes históricas e culturais. 
Segundo Castanho, em "Da discussão e o debate nasce a rebeldia" (pág. 93). Costuma-se relacionar ensino tradicional à aula expositiva e todas as técnicas relacionadas às atividades dos alunos à Escola Nova. Sabe-se que essas maneiras, de ver e tratar a educação, são simplistas e, com certeza, contribuíram e, ainda, contribuem para aumentar os nós na educação brasileira. 
Faz-se, então, necessário uma rápida apresentação histórica para que se possa entender a possível raiz do problema. Em primeiro lugar, a cultura brasileira nasceu sob o signo da forma como o brasileiro foi colonizado: de um lado havia aquele que determinava e; de outro, aquele que obedecia. Somando à cultura colonialista, existiu a escravista e a repressão nos anos da ditadura que juntas roubaram a subjetividade do Outro. A partir dai, nasceram duas correntes: a de direita e a de esquerda. Quem reprime está relacionado à direita e, conseqüentemente, a tudo que remete ao tradicional; já os que são vítimas dessa ordem são relacionados à esquerda. Dessa forma, o brasileiro entende essa palavra a partir desse contexto cultural e historicista.


Outro fator importante que deve ser destacado é a democratização do ensino fundamental. Um dos pontos relevantes foi a simplificação dos programas de ensino, para que a escola pudesse chegar a todos, e o conhecimento do professor foi desqualificado, pois era necessário contratar professores em massa, de forma rápida e barata. Segundo Christiano de Souza, em A escola brasileira, a lei e o laço social (pág. 52), nesses anos, a geração hippie fez com que se voltasse a pensar nos seres humanos como pertencentes à natureza, a reconhecer o homem como mais uma espécie dentre todas as outras espécies do planeta. Quando o sonho acabou, Deus saiu de cena e a história não prometia mais um final feliz, o interesse da cultura alternativa pela natureza espremia a esperança de encontrar na terra as raízes de sua dignidade e a forma de oposição à lógica das instituições autoritárias. 


Percebe-se, então, que os contextos tanto histórico quanto político vão direcionando o fazer educacional no Brasil e essas concepções não se universalizam, mas dividem opiniões. Sendo assim, acontece o retrocesso, não o avançar. 
Observa-se que se traduzia tradicional em educação ao conceito dicionarizado, ainda, relacionou-se a técnicas, sendo assim, aboliu-se essa corrente ou a tudo que a lembraria. Procuraram-se, então, novas correntes, mas, talvez, por falta de preparo intelectual, o novo foi mal interpretado, contribuindo, cada vez mais, para o empobrecimento intelectual dos alunos. Um exemplo é o construtivo proposto por Vygotski. Percebe-se, em pleno século XXI, que há profissionais discursando a teoria dele às avessas.
Na verdade, quanto se fala em tradicional, estamos relacionando às técnicas responsáveis para execução de atividades que, ao longo do processo, resultarão num aprendizado, ou melhor, no conhecimento. Tradicional não significa conduzir os alunos à memorização, mas significa responsabilidade e comprometimento com o aprendizado do aluno. Um exemplo: Freud estudou em uma excelente escola pública humanista, mas tradicional. O problema da não aceitação do tradicional na sociedade brasileira deve-se, unicamente à cultura histórica. 


É importante dizer que a Escola Nova, não consegue resultados satisfatórios com as novas teorias educacionais, porque não as usou com adequação. Segundo Castanho, (op. cit. pág. 96), Discutir e debater não são atividades espontâneas, fáceis. Não basta que o professor leve o aluno a exprimir-se e dizer o que sente. Levar o aluno à autonomia não significa recusar toda a cultura acumulada ao longo da história humana. 
O conceito de tradicional nos remete à Grécia Antiga e a Aristóteles. É importante destacar que, nos currículos da maioria dos cursos das Universidades, ele é sempre lembrado e estudado. Principalmente ao tratar-se da argumentação. Esta, como sabemos, representa o resultado de um trabalho cognitivo e dialético. Urge, então, admitir que o desenvolvimento cognitivo deva ser o ponto central para se amarrar a educação no século XXI. Não há outro caminho para o conhecimento se não o desenvolvimento cognitivo. Nesse caso, ele deve ser desenvolvido cedo. As escolas, que trabalham com as séries iniciais, devem estar atentas.

Nos últimos anos, as novas tecnologias surgem no cenário educacional com muita força. Nessa época, não é novidade dizer que elas tanto trazem benefícios quanto também prejudicam. Isso se tornou lugar comum. Mas é importante analisá-las no contexto educacional da sala de aula. Como essas novas tecnologias são usadas? Será que o professor as utiliza adequadamente? Será que o professor pesquisa sobre documentário, filme ou outro gênero que tenha relação direta com o assunto dado para que possa instigar uma discussão? Será que o professor utiliza as técnicas necessárias e os suportes adequadamente para que o aluno aprenda com essas novas tecnologias? Agora, duas perguntas fundamentais são lançadas. Será que o professor possui conhecimento intelectual para utilizar as novas tecnologias e obter resultado? Será que o professor possui tempo para realizar esse trabalho? Se não existirem as duas afirmações das perguntas acima, a educação brasileira estará fadada ao fracasso. 

A proposta desse texto foi exatamente sugerir um fim para as divisões das correntes educacionais: tradicional e escola nova. Direcionar o olhar para o centro que é ajudar e orientar o aluno a adquirir conhecimento torna-se o fundamental. No atual cenário educacional, não há mais lugar para discussões entre correntes educacionais já que ministrar uma aula expositiva não significa ser tradicional como também, por exemplo, dar um texto aos alunos e pedirem para desenhar o que eles entenderam, não significa, necessariamente, ser escola nova.






Referências Bibliográficas
Língua Portuguesa – Psicanálise & Linguagem – Ano III – novembro 2008. Ed. Segmento
ONRUBIA, Javier. Ensinar: criar zonas de desenvolvimento proximal e nelas intervir. IN: O construtivo na sala de aula. COLL, Cézar (Org). São Paulo: Ática, 1999

CASTANHO, Maria Eugênia L. M. Da discussão e do debate nasce a rebeldia. IN: Técnicas de ensino: porque não? VEIGA, Ilma P. Alencastro. 17 Ed. São Paulo: Papirus, 1991









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